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ESTAÇÃO CULTURAL: FERNANDO PESSOA É TEMA DE LIVE COM BATE-PAPO ENTRE ESCRITORES E PERFORMANCE CÊNICA

29.10.2020

Em iniciativa da Trensurb, escritores Jane Tutikian e José Eduardo Degrazia discutiram a obra do autor. Caracterizado como o poeta, ator Jairo Klein apresentou poesias de Pessoa. Live foi transmitida e segue disponível por meio do Facebook.

Por meio do Espaço Multicultural Livros sobre Trilhos, a Trensurb promoveu mais uma live do projeto Estação Cultural na tarde de quarta-feira (28). Dessa vez, o tema foi a obra do poeta português Fernando Pessoa – e seus heterônimos. Na ocasião, os escritores Jane Tutikian e José Eduardo Degrazia discutiram a obra do autor. Por sua vez, o ator Jairo Klein, ao final do evento, trouxe fragmentos de seu monólogo Eu, Pessoa e Outros Eus, declamando versos do poeta português caracterizado como ele. A transmissão foi realizada por meio do Facebook e o conteúdo segue disponível na rede social.

Pessoa: um gênio revolucionário

Escritora vencedora do Prêmio Jabuti, membro da Academia Rio-Grandense de Letras e organizadora de diversos livros, incluindo as obras completas de Fernando Pessoa, Jane Tutikian falou, no início da live, sobre a importância do poeta para a literatura. “Ele foi um gênio e ele representa toda a renovação do código poético português e também mundial”. Como exemplo da genialidade de Pessoa, Tutikian afirma que o sucesso em criar seus heterônimos foi único em uma época – final do século XIX e início do século XX – na qual diversos escritores tentaram o mesmo e não tiveram o mesmo êxito. “Por si só, isso já faz de Fernando Pessoa uma revolução na poesia portuguesa e na poesia modernista”, avalia a escritora. Ela afirma ainda que O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, um semi-heterônimo de Pessoa, é um renovador da narrativa ao lado de obras de autores clássicos como James Joyce, Franz Kafka e Virginia Woolf.

Médico, escritor e tradutor, José Eduardo Degrazia foi vencedor e finalista de diversos prêmios por suas obras produzidas – incluindo livros de contos, poesia, novela e infanto-juvenis – e traduzidas – sete delas, de Pablo Neruda. Para ele, “Fernando Pessoa é um mundo”. Degrazia afirma que há críticos que enxergam o poeta como “monótono nos temas e versátil na forma”, porém ele discorda dessa visão: “Os temas são também diversos e altamente criativos e, claro, em cada situação, em cada necessidade, usando uma forma”. O escritor afirma que se trata de “uma obra múltipla”, citando o único livro publicado em vida por Pessoa, Mensagem, e também os heterônimos do poeta, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Degrazia fez referência também ao livro Fernando Pessoa, um Poeta Predestinado, que, em um de seus textos, reconhece que, ao se ler Pessoa, tem-se a vontade, a todo instante, de fazer anotações de citações para serem usadas em epígrafes ou traduzir pensamentos e sentimentos. “Outra coisa que acho, no Fernando Pessoa, muito interessante”, diz o escritor, “é essa discussão entre o pensar e o sentir. Isso está em toda a obra dele, tanto no Fernando Pessoa, ele mesmo, quanto nos heterônimos”.

Os heterônimos e a mistificação de si mesmo

Para Tutikian, “Fernando Pessoa era um místico, na verdade, ele mistificava a si mesmo”. A criação de seus heterônimos – e as próprias histórias contadas pelo poeta para explicar essa criação – faz parte desse processo. Segundo a escritora, Pessoa dizia que, em meio a escrita de uma grande quantidade de versos, surgiu nele seu mestre, Alberto Caeiro. Então, como reação, ele precisou escrever mais versos como ele próprio, que resultaram na obra Chuva Oblíqua. Em seguida, sentiu a necessidade de criar uma coterie, uma “turma” para o mestre, que foi de onde surgiram Ricardo Reis – uma espécie de oposto de Caeiro – e Álvaro de Campos – que representa seus próprios traços de histeria. Isso teria ocorrido em 1914, porém há registros de Ricardo Reis desde 1912. “Ele inventa uma história que mistifica ele mesmo como poeta, mas não é verdade”, afirma Tutikian.

A escritora concorda com Degrazia em relação à dualidade entre pensamento, do ponto de vista racional, e sentimento, do ponto de vista emocional, na obra de Pessoa. Para ela, é dessa tensão que vem a poesia dele. Enquanto Alberto Caeiro é contra a metafísica (ou o pensar) e prioriza a emoção, Ricardo Reis “nessa tensão, tira a emoção e deixa só o pensamento”. Já Álvaro de Campos “é aquele que quer Sentir tudo de todas as maneiras, ele quer tudo, quer o pensamento e quer a emoção”. Segundo Tutikian, eles são diferentes entre si e diferentes do próprio Fernando Pessoa. E eles são heterônimos de fato – e não semi-heterônimos – por terem, além de suas obras e seus estilos próprios, suas biografias, suas vidas próprias. Além desses, há mais de cem personalidades literárias, algumas criadas ainda no período em que Pessoa era um estudante, vivendo na África do Sul, como Alexander Search e Robert Anon. Para Tutikian, as perdas na vida de Pessoa, levam-no a uma “impossibilidade de encarar o real”, que por sua vez faz com que ele, como uma pessoa fragmentada, busque a totalidade por meio de seus heterônimos.

Degrazia lembra de uma das personalidades literárias de Pessoa, Coelho Pacheco, que em seu único poema, Para além do outro oceano, diz que “um cérebro a sonhar é o mesmo que pensa”, reforça essa tensão pensamento/sentimento presente na obra do poeta português. Para Degrazia, a intensidade de Fernando Pessoa, dividida em suas várias personalidades literárias, cria um mundo de pensamentos e sensações, além de permitir novas descobertas, interpretações e até mesmo um sentimento de espanto. O escritor parafraseia ainda o autor português Helder Macedo ao dizer que “na verdade, Fernando Pessoa fez um romance que não publicou, na medida em que criava a vida dos seus heterônimos, cada um deles era um personagem, com sua vida própria, sua cultura, suas vivências”.

Tutikian destaca a relação “interpessoal” entre os heterônimos e a proximidade de um deles, Álvaro de Campos, ao próprio Fernando Pessoa. Enquanto Alberto Caeiro viveu por apenas um ano após a criação dos heterônimos e Ricardo Reis, cinco anos depois, muda-se para o Brasil. Já Álvaro de Campos, de certa forma, chegou a viver por mais tempo que o próprio Fernando Pessoa, uma vez que toda a produção do poeta em seu último ano de vida foi assinada com o nome de Campos. Álvaro de Campos tem, portanto uma vida completa. “Quem é que conta essa história? É Fernando Pessoa. Isso faz parte da própria mistificação dele mesmo”, diz Tutikian. A escritora afirma que Pessoa faz o poema, explica o poema e a teoria como quer, criando uma teoria literária. Para ela, a melhor definição de um heterônimo foi o próprio poeta quem deu: “são personagens de uma peça sem enredo”. Sobre Mensagem, Tutikian afirma que foi o livro que abriu, de fato, a literatura portuguesa do século XX, trazendo um rompimento com a temática laudatória e ufanista que existia até então. “Isso é a nota de toda a literatura portuguesa do século XX”.

Um poeta cerebral

Para Degrazia, é interessante notar, sobre os heterônimos, como Fernando Pessoa fazia deles “um encontro e um desencontro da vida que ele tinha com a vida que desejava ter”. Ele lembra ainda que Pessoa é um dos três grandes escritores portugueses juntamente com Luís de Camões e Eça de Queiroz. Traça ainda um paralelo entre Pessoa e o brasileiro Mário de Andrade, enxergando semelhanças de personalidade, trabalho literário, angústias pessoais e grande capacidade de aglutinação do ponto de vista intelectual.

Tutikian acredita que é possível se fazer uma aproximação de Pessoa com os modernistas brasileiro, como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, pois, até o modernismo, o poema trazia aquilo que o poeta sentia: “O sujeito empírico, que é o poeta, se confundia com o sujeito lírico e quem é responsável por essa dissociação é justamente o modernismo”. A maior parte dos poetas modernos, no entanto, criou um sujeito lírico, enquanto Pessoa criou diversos sujeitos líricos. Estes, por sua vez, por serem poetas, acabam se transformando em sujeitos empíricos de seus personagens/sujeitos líricos. “É uma cadeia poética que só ele conseguiu”, afirma Tutikian. Para ela, “isso é um trabalho cerebral” - que fica bastante claro nos poemas Autopsicografia (que começa com o verso “O poeta é um fingidor”) e Isto.

Degrazia acredita que esses poemas demonstram muito bem o que é o trabalho do poeta: “Ele consegue expressar de uma forma absoluta essa questão entre a emoção inicial, a dor, que veio de alguma emoção, de alguma sensação, e o segundo passo que é o escrever”.

Para Tutikian, o fingimento do poeta não é um fingimento por si só, mas algo que faz parte de uma busca pela verdade. Seria uma espécie de resposta à impossibilidade de lidar com a realidade, mas que, talvez por medo, ao final, acaba não resultando nessa descoberta da verdade.

Dando vida à poesia

Ao final da live, o ator Jairo Klein apareceu caracterizado como Fernando Pessoa num cenário carregado de tons de vermelho, declamando e dando vida a versos do poeta português, utilizando objetos como um sino, livros, uma garrafa de água e uma moldura. Klein começou com trechos de Mestre, meu mestre querido!, de Álvaro de Campos, e passou por poemas como Vai alta no céu a lua da Primavera e O meu olhar é nítido como um girassol, ambos de Alberto Caeiro, Autopsicografia, Ó sino da minha aldeia, Num meio-dia de fim de primavera, de Caeiro, Poema em linha recta e Sentir tudo de todas as maneiras, ambos de Campos, além de trechos do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Para Jane Tutikian, que chamou de “grande dama das palavras”, o ator dedicou Eros e Psique. A José Eduardo Degrazia, a quem se referiu como “mestre”, Klein dedicou Para ser grande, sê inteiro, de Ricardo Reis. A performance do ator se encerrou com versos dos poemas Liberdade (“Grande é a poesia, a bondade e as danças…/Mas o melhor do mundo são as crianças”) e Grandes são os desertos, e tudo é deserto (“Grandes são os desertos, minha alma!”).

Jairo Klein atua desde 1982 em Porto Alegre, pelo interior do Rio Grande do Sul e Brasil afora. Participou de vários projetos culturais nas áreas de teatro, dança e cinema. Faz parte do grupo Cia. Palavra&Ato, grupo Teatrofídico/Usina do Gasômetro e Núcleo de Atuação Quimera (NAQ), onde desenvolve pesquisas cênicas, projetos culturais e arte educação. Pesquisa a obra e a linguagem do poeta Fernando Pessoa e seus heterônimos há mais de 30 anos, realizando o espetáculo Eu, Pessoa e Outros Eus.

A live de quarta-feira foi moderada pelo poeta e assessor da Trensurb, Élvio Vargas, que também trabalhou na organização da atividade. Atuaram também na produção do evento o gerente de Comunicação Integrada, Jânio Ayres, e a estagiária de publicidade e propaganda, Giovana Smialowski.

Foto: Amanda Barros/Trensurb

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